uma viagem acronológica multilingue através de pALAVRAS e iMAGENS de minhas andanças por este mundo
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Nina & Bobby no teatro
Este foi o show do Bobby Mcferrin no Teatro Municipal, que teve participaçao especial do Barbatuques. O Bobby chamou alguem pra subir no palco e dançar para ele.
A Nina foi.
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quarta-feira, 30 de abril de 2008
SERES

Texto utilizado en la expo de fotos del Primer Festival de Cine Documental sobre la interrelación entre los seres humanos y los animales(abril 2008 /Quito- Ecuador):
Ser Humano Animal
Nosotros somos seres humanos, seres humanos animales. ¿Qué implica este hecho? ¿Esto nos hace superiores a los demás animales? ¿Como nos relacionamos con los animales no humanos? ¿Les tratamos con respeto?
Permitámonos en este momento realmente ponernos en su posición e imaginar y reflexionar cómo se sienten. ¿Que sentirán cuando encarcelamos a un ser en nuestro hogar, en zoológicos o en circos, únicamente para satisfacer nuestros deseos “humanos” de verles cerca…usarles?!?
Karina va a la selva y se encanta con los monos. “Qué hermosos que son, quiero llevar uno a mi casa”. ¿Pero qué querrá él, el mono, un ser con familia, hogar y vida propia?
¿Qué sentirán cuando los ponemos en laboratorios y les inyectamos sustancias fortísimas, les cortamos y les hacemos los más crueles experimentos, diciendo que eso es para el bien? ¿Para el bien de quién?
¿Qué sentirá un caballo con hierros en la boca y otro animal arriba de él, pegándole con un chicote? ¡¿¡Y decimos que no pasa nada porque el caballo es fuerte!?!
¿Qué sentirán tantos miles de animales que son forzados por nosotros a pasar toda una vida de miseria, cárcel y tortura para, al final, ser muertos y comidos? ¿Qué sentirá nuestro cuerpo cuando ingerimos esta carne tan sufrida? ¿Qué sentirán nuestros órganos y nuestras células? ¿Y nuestro espíritu?
¿Qué sentirán las vacas lecheras que pasan toda su vida teniendo terneros que se los quitan a los primeros días de vida para que la leche pueda llegar a nuestras mesas?
¿Qué sentirán los chanchos, gallinas, vacas, cuando les transportamos apretados en el cajón de un camión donde no pueden ni moverse? ¡Y nosotros ya reclamamos cuando nos sentimos apretados en un bus!!!
Mirémosles en los ojos, de ser vivo a ser vivo, sin posturas de superioridad o prejuicios, a ver si podemos comprender y profundizar un poco nuestras relaciones con esos seres con los cuales compartimos el planeta tierra, y por lo tanto son nuestros hermanos.
¿Estarán ellos aquí para que les hagamos lo que nos da la gana? ¿Para que les manipulemos, les propiciemos una vida hecha pedazos, les torturemos y les hagamos sufrir para nuestro placer? ¿Será este el sentido mayor de la vida animal?
¡VIDA! ¡ANIMAL! ¡Que fuerza tienen esas palabras!!! ¿Sientes? Todos somos SERES. Seres humanos, Seres animales, Seres humanos y animales.
Experienciando a Ecosimia
Quando o neném chora, a mãe se incomoda. Quando a mãe esta incômoda por muito tempo, o pai fica bravo. Nessa história, contada pelos antigos, o neném é o Vulcão Pichincha, que fica em Quito. Este teve sua ultima erupção algum tempo antes que a mãe, que é o Tungurahua, começasse a sua erupção que já dura uns 6 anos. O pai é o Cotopaxi, considerado o vulcão mais perigoso do Equador e que pode entrar em atividade a qualquer momento.
Sabedoria ancestral à parte, diz a ciência que o Cotopaxi tem dois tipos de erupção, cada qual com seu ciclo. O mais suave é a cada 90? anos e o mais forte a cada 2000? Já faz uns 140 anos que o primeiro não acontece e o segundo 2300. Enquanto isso o governo não menciona nem uma palavra em relação ao ‘pai’.
É sexta-feira, 18 de janeiro. Partimos às 7:15h rumo ao sul. Mauricio, Suzana, Valentin e eu. Mauricio é um senhor, nascido no Equador e criado na Suíça, que criou a idéia e continua sendo o maior incentivador do que chamam de Sintral – Sistema de Intercambio e transações locais. Suzana é a mãe de Valentin – São alemães e vieram conhecer como funciona Sintral na prática, mesmo porque na escola de Valentin estão aplicando as mesmas idéias, baseados num dos vários cursos que Mauricio e sua Esposa Rebeca ministraram pela Europa.
Quito fica na província de Pichincha, que é de onde saímos. Passamos pelas províncias de Cotopaxi, Tungurahua e chegamos a Chimborazo, cada qual com seus vulcões de mesmo nome. Dos três, só vemos o terceiro – os outros dois estão totalmente cobertos pelas nuvens. Passamos perto do refugio para os aventureiros que escalam o Chimborazo. Passamos dos 4000 metros de altitude.
Nossa primeira parada é um povoado perto da cidade de Riobamba. Chegamos à casa de uma mulher que vive sozinha. Mauricio tem que falar algo com ela e logo seguiremos viagem. Ela insiste que entremos para conhecer. Mauricio tentar resistir mas é persuadido. Logo a senhora, muito amigável, diz que não tem muito para oferecer mas tem um pouco de favas cozidas e nos traz um prato cheio delas, junto com outro prato de ají. Ají é um molho feito com pimenta. Nos sentamos para deliciar-nos com as favas frescas e o ají preparado na pedra (moedor tradicional), como nos conta nossa anfitriã. Em seguida ela traz um lindo prato de salada e ainda pedaços de um queijo tipo ricota e um prato cheio de choclos (milho verde cozido), este bem diferente do que conhecemos no Brasil. Os grãos são mais branquinhos e pontiagudos – uma das diversas espécies tradicionais da região. Tudo o que nos serve é orgânico e cultivado por esta senhora e seu grupo, ali nas redondezas. Para completar, ainda nos serve suco de tomate de arvore, fruta pouco conhecida no Brasil.
Após tanta fartura, nos despedimos agradecidos e satisfeitos. Vou ao banheiro e no caminho vejo suas criações de cuys e coelhos. Cuys são porquinhos da índia, carne muito apreciada pelos paises andinos. Não dá pra não sentir um aperto no peito ao ver os bichos apertados em pequenas gaiolas onde mal podem se mover.
Entramos no carro e paramos em menos de 1km. É um dos muitos CPAA (Centro Para Atividades Autônomas) que há hoje no Equador. Resumindo, um CPAA é como uma escola alternativa bastante radical, onde não há aulas, professores e, muito menos, provas e notas. Cada criança aprende de acordo com seu interesse e ritmo natural.
Uma historia que me ajudou bastante a entender como este sistema pode funcionar é de uma criança que já havia freqüentado uma escola “normal” por alguns anos e de repente foi transferida para o “Pesta” (apelido para Fundación Educativa Pestalozzi – precursora do CPAA). Esta criança não tinha o menor interesse em aprender, só queria ficar brincando ou fazendo nada, enquanto as outras crianças que freqüentaram o Pesta desde pequenos, tinham bastante interesse em aprender sobre diversos assuntos, e o faziam, com uso do material disposto e adultos que sempre estavam ali para ajudar. A conclusão foi que a criança que entrou depois, já havia sido “contaminada” pelo sistema de ensino tradicional, onde somos obrigados a assistir aulas, forçados a estudar tantas coisas que não nos interessam e muitas das quais nunca nos servirão nessa vida ou em outras e ainda submeter-nos ao julgamento de professores que nem sempre são aptos para lidar com esses seres tão sábios e inocentes que são as crianças. Sendo assim, quando foi ao Pesta, onde não era obrigado a nada, abusou de sua liberdade e não se adaptou.
Voltando ao CPAA a que acabáramos de chegar, entramos para conhecer: várias salas bem organizadas, com os mais diversos materiais para aprendizagem. O que mais há são jogos educativos. Várias crianças brincando e alguns adultos tomando conta. Conversamos um pouco e seguimos nossa viagem rumo à Pretoria.
Pouco abaixo dos 3000 metros, estamos em uma estrada de terra um tanto precária, e em meio a uma densa neblina. A umidade da região propicia quase que uma selva. Baixamos rapidamente e logo estamos em uma densa floresta com casa de madeira, muitas arvores de banana, mandioca, urucum. Quando chegamos à 40m do nível do mar, mesmo bem longe do mar, já se diz que estamos na costa. No Equador chamam de costa uma faixa de aprox 200km entre a praia e o interior, ao longo de todo o país.
Passamos pelo povoado de Caluma e uns 20km depois chegamos a uma ponte em reforma. Não há como passar. À nossa frente esta um caminhão que sai da estrada para a esquerda e para frente de um rio. Paramos perto deles. Um dos rapazes do caminhão tira os sapatos, arregaça as calças e entra no rio para medir a profundidade. A água praticamente lhe molha a bunda. Já decididos a dar a volta, vem, do outro lado do rio, uma camionete igualzinha à em que estamos. Sem titubear, cruza o rio com facilidade. Então aparece um jipe Suzuki e também cruza. Logo o caminhão e então vem um ônibus, também do outro lado e cruza tranqüilamente. Finalmente Mauricio se convence a cruzar. Engata o 4x4 e lá vamos nós. Um quilômetro depois chegamos ao pequeno povoado de Pretoria, nosso destino.
Estacionamos em frente à casa de Sister, nosso anfitrião. Ele vive justo em frente à escola, onde há uma quadra de futebol e outra de vôlei. Aqui jogam o que chamam de Ecuavolei, com três integrantes de cada lado. No salão da escola há um “discomóvil” – aparelho de som potente geralmente alugado para festas. Muitos adultos dançam ao som de musica eletrônica nacional, como se estivessem numa discoteca. Ao lado da escola está a igreja.
Pouco depois chega Jose Manoel, com o caminhão carregado de produtos de Chilco, um pequeno povoado na serra de Tungurahua. Com ele vieram de Chilco três irmãos, dois adolescentes e uma criança, para conhecer o povoado. Uma das propostas de Sintral, além de fazer o comercio sem utilizar a moeda oficial, é que as pessoas dos grupos conheçam as outras pessoas e outras regiões. Por enquanto viajam poucos, no caminhão que leva as mercadorias, mas a idéia é ter também um ônibus que leve mais gente.
Ao lado da casa de Sister já esta uma grande pilha de cachos de banana, um pouco de cana de açúcar e mandioca. Alguns curiosos sobem na traseira da caçamba para espiar o que lhes enviaram. Pouco depois vamos jantar. Somos convidados a comer todas as refeições nas casas das famílias que participam do mercado de Sintral. Como somos muitos, nos dividem em grupos. Mauricio fica na casa de Sister e os outros subimos na caçamba do caminhão que cruza o asfalto e entra por uma ruazinha de barro enlamaçada em meio a uma plantação de cacau. De pé, no fundo da caçamba, e meio a sacos de batata, sacudimos para lá e para cá. Paramos em frente a uma casa de madeira. ‘Aqui ficam os meninos de Chilco’. Seguimos mais alguns metros e paramos em frente a uma casa de concreto. Seguimos por um caminho em meio aos cacaueiros e logo chegamos a uma casa de madeira bem simples. É elevada do chão, imagino que para proteger da umidade. Subimos as escadas, passamos por uma ninhada de cães e entramos. Um ambiente bem pequeno, com uma rede, uma pequena mesa e banquinhos de madeira. Sobre a mesa uma toalha de plástico com desenhos de papai-noel. No alto, uma televisão que já estava ligada quando entramos. O jovem pai de família lhe aumenta o volume. Tem três filhos, sendo que um é neném de colo. A mãe, magrinha, passa da cozinha para outro ambiente e volta com uma panela e o marido logo traz pratos guardados em saco plástico.
Nos servem pratos de sopa com pedaços de frango. Digo que sou vegetariano e logo me trazem uma sopa de macarrão (a mesma sopa só que sem o frango). Como um pedaço de mandioca que há na sopa e logo trazem um prato de banana da terra cozida. Abandono a sopa e ataco as bananas. Em seguida trazem pratos de arroz com ovo frito. Digo que também não como ovos, e me fazem banana da terra frita. No meio do arroz há um ou outro grãos de lentilha. Por ultimo trazem suco de tomate de arvore. Terminamos de comer, agradecemos e nos despedimos. Como de costume no Equador, dizem: Disculparán (desculparão) – o que me traz uma sensação rara. Nos recebem em sua casa, servem a melhor comida que dispõe e pedem desculpas!?! Bem, tenho que me acostumar e, afinal, não é pior do que o nosso ‘obrigado’.
Subimos no caminhão, pegamos os chicos de Chilco e, no caminho, fazemos algumas paradas para pegar mais bananas para o mercado de amanhã. Em uma das paradas, onde carregamos muitas bananas, o menino menor de Chilco se aproxima de uma égua amarrada que está com seu filhote e lhe dá um tapão no focinho. Ela fica muito assustada e o menino ri, enquanto os outros observam em silêncio. Vejo que o filhote tem uma pata traseira bem enrolada na corda que prende a mãe. Aproximo-me para soltá-lo. A mãe não me deixa chegar muito perto, mas consigo afrouxar um pouco a corda e soltar o pequeno.
Voltamos à casa de Sister e sentamos na sala, todos bastante cansados. É hora de fazer “uma social”. José Manoel vai ao caminhão e traz um violão, um bumbo e um reco-reco. Tira o violão da capa e começa a tocar e cantar. Acompanho-lhe com o bumbo. Ficamos um tempo tocando, conversamos e enfim vamos dormir. Todas as camas com mosquiteiros. Depois de passar duas semanas em Pifo dormindo com vários cobertores, durmo esta noite mesmo sem lençol.
Sábado despertamos as 7:30h e Sister caminha conosco para o ‘cafecito’ numa outra casa. Há café solúvel, chá de erva cidreira em pacotinhos e, para cada um, um grande prato de arroz branco com um pedaço de frango. O arroz é importado por ser mais barato que o nacional. O frango é do quintal. Aqui se diz que não se deve matar uma galinha a não ser que alguém esteja doente, seja uma celebração especial, ou haja visitas.. Eu como somente arroz e tomo chá. Explico que sou vegetariano. Sister é convencido a ficar e comer junto conosco. Pergunta se não tomo café. Digo que não e se interessa em saber por que não tomo café e não como carne. Ele diz que aqui se costuma plantar e tomar o próprio café. Explico-lhe que não me sinto bem quando consumo café ou carne, sendo que um me deixa muito nervoso/ansioso e o outro me faz sentir mais pesado, ou melhor, sinto-me melhor sem a carne.
Voltamos à casa onde logo será o mercado. As pessoas vão chegando. Alguns vão trazendo mais produtos e os posicionam junto ao que já estão. Começam a descarregar o caminhão: primeiro as bananas que carregamos à noite, então várias sacas de batata, uma de cenoura, couve-flor, alface e repolho. Em seguida carregam todas as bananas, mandioca, cana, alguns mamões e maracujás. O caminhão fica praticamente lotado.
Os alimentos são retirados das sacas e posicionados no chão. Mauricio da algumas palavras com ultimas novidades. Dá-se inicio ao mercado. Forma-se uma fila para pegar a primeira leva de alimentos. Cada um com seu saco na mão, vão passando e recebe primeiro uma porção de batatas e outra de cenouras. Quando todos passaram, chamam para o segundo turno. Depois com couves-flores e repolhos. Assim vai até acabar tudo. Sister então diz que há 15 alfaces. “Quem se interessa”. Por um breve momento ninguém se move e, de repente, vão todos ao mesmo tempo. Alguns ganham, outros não.
É o fim do mercado. Cada um segue para sua casa com seus produtos vindos da serra. Em seguida começa a reunião de mutuo apoio. Enquanto esperam que o grupo se complete, José Manoel toca e canta. Logo estão todos presentes, cada um com seu caderninho de contabilidades. Sister é o “banco”. Cada integrante contribui com o que pode e chegam a um total de USD 333,00. Uma leva 150 e um outro mais 150. Os 33 restantes vão para um terceiro interessado. A reunião se acaba. Assim fazem a cada mês, para que alguns do grupo levem uma quantia de dinheiro que possam investir em algo que desejem e, de acordo com a possibilidade de cada um, vão pagando de volta ao grupo, sem juros.
Logo Sister nos leva (os visitantes) para colher sapotes: umas frutas suculentas, marrons por fora e laranja brilhante por dentro. Também comemos cacau e toronja. Hora do almoço: Sopa com frango, arroz, ovo, couve-flor com batatas e salada. Grandes quantidades. Como sobra muito, nossa anfitriã pensa que não gostamos da comida: Disculparán que mi comida no les agrada. Explicar não parece ajudar.
Vamos na camionete de Mauricio colher bananas no meio de uma plantação de cacau e depois dar um mergulho no rio. Um rio largo e raso, mas com uma bela correnteza. Água quentinha. Quando voltamos, ficamos sentados na varanda de Sister assistindo as pessoas que saiam da missa e aos que jogavam ecuavolei e futebol nas quadras à frente. Uma mulher vender sorvete tipo raspadinha e um homem em sua moto vende picolés e Paes caseiros. Chega um carro promocionando seus sorvetes por um alto falante.
Na varanda, comemos abacaxi, toronja, sapote e umas bananas chamadas de limeñas que aparentam ser qualquer banana por fora, mas são de cor laranja por dentro. Vem a chuva e nós ainda ali, só olhando. No jantar, parece que já ficaram sabendo que não como carne e servem arroz com couve-flor, salada e grandes e suculentos pedaços de mamão. Para beber, chá de camomila.
Voltando para casa, todos na sala ao som do violão e voz de Jose Manoel. Muitos mosquitos. A chuva chove.
Domingo partimos dos 40m de altitude de Pretoria rumo a Chilco, uma pequena comunidade que fica a mais de três mil metros. Mauricio me pedira para ir com Jose Manoel, no caminhão, para que um dos meninos de Chilco possa ir com ele na camionete e indicar-lhe o caminho.
Despertamos as 6:30h para sairmos às 7h. O café da manhã, para variar, é arroz com um pedaço de frango. Como somente um pouco de arroz. Ao nos despedirmos de todos percebo que os meninos de Chilco estão levando um gatinho, dentro de um saco plástico amarrado, com alguns furos para entrar ar. Ao entrar no caminhão o colocam no chão, junto aos pés. Digo ao mais velho para tirar-lhe do saco e levar-lhe solto. Diz que não, que está bem assim. Assim que entro pego o saco e tiro o gato de dentro, posicionando-o em meu colo. Ele está bem assustado, mesmo porque ainda é filhote, e tenta andar para algum lado. Impeço que saia do meu colo até que se acalma. Faço uma caminha com meu casaco e então ele dorme.
Nossa viagem é longa, principalmente porque o caminhão está lotado de bananas entre outros produtos. Na pequena cabine somos três adultos e uma criança. Nessas horas ter pernas compridas é realmente um incomodo. O mais confortável de todos é o gato que não sai do meu colo a viagem toda. Aproximadamente oito horas após nossa partida de Pretoria, na província de Bolívar, chegamos a Chilco, província de Tungurahua.
Estacionamos na casa da família dos três irmãos que estavam conosco em Pretoria. Mauricio e os outros chegaram 1,5 h antes que nós e foram caminhar até uma parte de onde se vê o vulcão Tungurahua para ver se podiam avistar algum sinal de sua erupção. Logo voltam dizendo que não viram nada. Está tudo nublado. Vamos todos à cozinha, que é uma casinha de barro com uma mesinha, algumas prateleiras e uma fogueira no chão, em um dos cantos. Muita fumaça para todo lado e poucas saídas para ventilação. Todas as paredes são pretas, tingidas pela fumaça. A mãe da família, Companheira Dolores, esta agachada junto ao fogo com um espeto na mão, assando dois cuys (porquinhos da índia). Carne muito apreciada nos países andinos.
Como de costume, estão preparando carne em homenagem a nós, convidados. Fora isso há um panelão de batatas cozinhando. A nora de Dolores põe um pouco de banha e sementes de urucum numa lata de sardinha? vazia e deixa um pouco sobre o fogo. Então côa a banha e prepara um molho com cebola picada. Também há uma sopa de arroz de cevada com leite. Vendo tudo isso, já vejo que vai ser bem difícil ser vegano aqui. Na costa serviam um pedaço de frango em todas as refeições, mas sempre podia deixá-lo de lado e comer os acompanhamentos – e não creio que usavam banha para cozinhar.
Mauricio conta para nossos hospedeiros que eu e os alemães somos vegetarianos. Para eles isto é quase que inconcebível. Trato de explicar de uma maneira bem simples, sem entrar em muitos detalhes. Ao final Dolores diz: mas aqui vai comer (carne). E solta uma bela risada, acompanhada pela nora e filhos. São todos muito bem humorados e risonhos.
Para quem vem de fora, uma das primeiras impressões é que são muito pobres. Isso já me falaram mesmo antes de chegarmos aqui. Mas tem uma linda horta com muitas verduras e legumes, além de plantações de batata e criação de cuys. Algo que me espantou é que nessa realidade, vivendo em casa de barro super simples, com água somente no poço, todos da família, fora as crianças, tem celular. E todos os homens vestem sapatos e calças sociais. E apesar da evidente vida dura que tem, demonstram uma alegria admirável.
Quando a comida fica pronta, servem a sopa, que é feita com leite e banha. Para não criar muito caso, resolvo engolir meu orgulho e transmutar. Como, pescando os pedaços de batata e o arroz de cevada, até que servem o prato principal: batatas cozidas, com o molho e cuy na brasa. Abandono a sopa e vou comendo as batatas, evitando o molho. O cuy eu nem toco.
Quando terminamos de comer, o caminhão já está descarregado e os produtos vindos da costa amontoados num canto. Logo tiram os dois carros do terreno para dar espaço ao mercado que já vai começar. Enquanto se deliciam com as bananas e outras frutas fresquinhas, começam a fazer pilhas, dividindo igualmente todos os produtos. Começam pelos maiores cachos de banana. Conforme mais pessoas do grupo vão chegando, já entram para ajudar na divisão dos alimentos. Jose Manoel canta e toca musicas andinas em seu violão. As crianças correm para todos os lados, brincando, comendo frutas e ajudando na distribuição. Assim passam algumas horas, e ao final há vários montinhos, cada um com igual quantidade de bananas, mandiocas, maracujás e cana. Como os sapotes (fruta deliciosa) e os mamões são muito poucos, os cortam na hora para compartir com todos. No meio de alguns cachos de banana aparecem baratas da mata. Uma menina grita: acudam-me. Outra se aproxima, pega as baratas, vai ate o poste de luz e as posiciona ali para que subam. Pergunto-lhe por que faz isso. Diz que elas sobem e não descem mais – parece que não sabem descer, então morrem lá em cima.
Apesar de estar nublado, o fim da tarde é notável pelo frio que vai aumentando. Mauricio fala algumas palavras ao grupo, basicamente o mesmo que foi dito em Pretoria e se vai com Suzana e Valentin. Eu fico para fazer companhia a Jose Manoel. Ele decide dormir aqui para ir amanha a dois povoados mais ao sul, onde há grupos que participavam dos mercados de economia alternativa, mas com quem perderam contato há algum tempo.
As pessoas vão levando suas mercadorias cada um como pode. Uns se amontoam na caçamba de uma pequena camionete, outros levam em carrinhos de mão e outros ainda levam nas costas. Um casal amarra sacos sobre um burrico. Não entendo muito bem por que, mas apertam tanto as cordas contra o animal que é preciso quem um terceiro tape a cara do animal com um pano para que ele fique quieto- talvez por ficar confuso.
Quando todos já partiram, ficamos um tempo ainda ao lado de fora, Jose Manoel tocando violão e eu acompanhando no bumbo, até que não agüentamos mais o frio e o companheiro pai de família (não lembro seu nome) nos convida para entrar na casa onde dormiremos. É uma casa nova, totalmente diferente da onde a família vive. Foi construída com a intenção de que se tornasse um CPAA (escola alternativa), mas o grupo não se organizou e por enquanto está meio sem uso.
Entramos no quarto onde nos prepararam uma cama. É uma construção um tanto aconchegante, feita de tijolos, com grandes janelas. Nos sentamos e seguimos tocando. Logo trazem uma panelinha com chá de tomilho lotado de açúcar. Isso misturam com cachaça para ajudar a esquentar. Ponho só uma gotinha no meu para dar um gostinho. Passado um tempo nos chamam para jantar. O céu está claro, com a lua praticamente cheia, brilhando lá no alto. Comemos sopa. Entrego-me à situação e como tudo, mesmo que feita com leite e banha. Durante a refeição ouvimos duas vezes estrondos vindos do vulcão. São bastante parecidos a uma forte tempestade. Antes de dormir ainda vamos ver se avistamos o vulcão, mas o céu já esta totalmente nublado e não vemos nada. Ao deitar ainda ouvimos mais um estrondo.
Durante a noite sinto-me um pouco sufocado. Creio que por haver dormido duas noites no calor, sem cobertas e praticamente sem roupas, e agora com casacos e dentro de um saco de dormir. De manha somos despertados pelo pai de família dizendo que temos que ir tomar café logo ele tem que sair para ir trabalhar. Servem pão comprado e chá, com muuuuuuuuuuito açúcar. Em seguida vem um pratão de arroz com caldo de batatas e seilamaisoquê. Digo que não quero, que um pãozinho com chá é o suficiente para mim de manhã, mas insistem que coma ao menos um pouco.
Partimos então, Jose Manoel e eu, no caminhão, rumando para o sul. Ele quer visitar duas comunidades mais ao sul de Riobamba, que costumavam participar dos mercados, mas com as quais haviam perdido contato. Quase chegando na primeira, Virgen de lãs Nieves, que é de um grupo de mulheres, encontramos três delas descendo a rua. Jose Manoel conversa com elas, que se mostram bastante interessadas nos mercados. Ele pergunta se teriam mais interesse em frutas ou peixes, pois cada produto viria de uma comunidade diferente. Elas optam por frutas. Trocam contatos telefônicos e seguimos para a segunda. Também no caminho encontramos um casal que faz parte do grupo e se mostram igualmente interessados nas frutas. Sem precisar seguir adiante, damos meia volta e rumamos a Quito. Umas 5 horas depois Jose Manoel me deixa numa bifurcação onde ele tem que subir ate o Leon Dormido, onde vive, e eu sigo em ônibus até “minhas casa” em Pifo.
Agora aqui estou, muito agradecido por poder experienciar esse mercado de Sintral e, principalmente, a vida nessas comunidades isoladas, aonde eu dificilmente chegaria sozinho. Sigo digerindo essas experiências enquanto me envolvo com outras.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Carta Aberta ao Presidente de Botsuana
Nós dizemos que se você tem problemas, deve solucioná-los e não se esconder deles. Se você se esconde deles, signifi ca que você ainda tem os problemas, os problemas do seu coração, porque eles permanecem dentro de seu coração ardente. Mas, se você pega esses problemas no meio das pessoas e fala abertamente sobre eles, se você leva essa dor aos outros e pede sua ajuda, todos vocês juntos vão achar um caminho.
/ANGN!AO/UN - do livro Healing Makes our Hearts Happy

Naro Giraffe apresenta danças sagradas ao Presidente Mogae
Sua Excelência,
Sou um viajante do Brasil que passou algum tempo em seu lindo país, Botsuana, com incríveis povos e culturas. Tenho feito alguma pesquisa na situação dos chamados ´Basarwa` (bosquímanos) e sua recolocação.
O senhor diz que quer desenvolver estas pessoas, mas de acordo com o dicionário, desenvolver é “fazer maior, ou melhor”. Como o senhor pode saber o que é melhor para um povo completamente diferente, com uma cultura e valores diferentes, o qual tem morado nesta terra por mais tempo que seu próprio povo?
Eu não estou dizendo que eles devem tem mais direitos por isso, mas penso que devem ter os mesmos direitos. Eles devem ter a chance de escolher como querem viver suas próprias vidas. Se eles escolhem viver como caçador-coletores, com o devido respeito, quem é o senhor para dizer que eles não podem fazer isto porque é algo do passado?
Numa de suas falas o senhor declarou: “… nós devemos continuar também a rejeitar o velho colonial mito do apartheid (segregação racial) que insiste que algumas comunidades negras são mais indígenas que outras”. De acordo com a ONU: “povos indígenas são os herdeiros e praticantes de culturas únicas e de meios de relacionar com outras pessoas e o meio-ambiente. Povos Indígenas retiveram características sociais, culturais, econômicas e políticas que são distintas daquelas das sociedades dominantes nas quais elas vivem”. Citando Alice Mogwe: “A tragédia é que nós estamos jogando de novo o jogo de colonização se nós não permitirmos aos San* o direito de serem diferentes”. O senhor vê a conexão? Não é sobre considerar algumas pessoas mais indígenas que outras, é sobre o significado de ser indígena e o que isso implica em
sua maneira de viver. O governo de Botsuana adotou características ocidentais de sociedade, cultura, economia e política. Algumas pessoas/povos, tais como os basarwa/Bosquímanos não querem isto. E não é sobre eles voltarem para seus velhos hábitos e andarem por aí em peles de animais. É sobre eles escolherem como querem viver e como querem desenvolver.
Porque eles não podem ser diferentes? Como senhor mesmo declarou: “A força e o sucesso de nossa nação dependem de nossa habilidade de apreciar e administrar nossas diferenças”. O país tem adotado uma maravilhosa política com a Visão 2016, mas o senhor se contradiz com suas ações presentes e algumas das metas: “… liberdade de vontade será completamente protegida”; “Haverá altos estandartes de moralidade pessoal e tolerantes atitudes sociais para pessoa/povos de diferentes culturas, tradições étnicas, religiões ou desabilidades”; “Botsuana será uma nação unida e orgulhosa”.
Botsuana tem tudo o que precisa para construir uma nação unida e orgulhosa, exceto que o governo está insistindo em expressar falta de ‘botho’ (palavra Setswana para respeito, bons modos) entre as minorias. É inaceitável que um presidente não respeite as pessoas de seu próprio país. É inaceitável que um presidente não respeite seus direitos mais
básicos, tais como a liberdade de escolher onde e como querem viver suas próprias vidas. Todos, inclusive as minorias, têm o direito de viver uma vida de dignidade sem hierarquias dizendo-lhes o que fazer, como viver, que línguas falar e em que acreditar. Eu espero que, por escrever isto, não seja estereotipado como apenas mais um romântico que quer ver os bosquímanos caminhando por aí em peles de animais ou um branco arrogante vindo lhes dizer o que fazer. Bem, não me entendam mal. Eu não quero dizer a vocês ou a eles (Bushman/Basarwa) o quê fazer. Eu não penso que eu sei melhor. Também não penso que vocês saibam melhor. É por isso que eu desejo que vocês parem de dizer a eles o que fazer, pensando que vocês sabem melhor.
Estive em New Xade e em alguns outros “re-assentamentos”. Fui informado que o governo está dando muita comida às pessoas re-assentadas em New Xade. Isto soa como boa ajuda, mas está somente fazendo-os completamente dependentes do governo. O senhor tira suas terras, seus direitos, sua independência como povo, suas vidas como eles a conhecem e, em troca, lhes dá dinheiro, comida e outros bens materiais. Muito dinheiro está sendo gasto no desenvolvimento dos acampamentos de re-assentamento, mas vocês estão se esquecendo de que as pessoas são o mais importante.
A princípio fiquei impressionado com o trabalho que a ONG Permaculture Trust of Botsuana (PTB) está fazendo para ajudar as pessoas a fazer pequenas hortas e criações de galinhas, a produzir tijolos para suas casas próprias, e começar uma loja de artesanato. Por outro lado, percebi que mesmo que este seja um lado positivo, no conjunto é desprezível. Está longe de compensar todas as perdas. O trabalho que a PTB está fazendo é só mais um meio de induzir os Basarwa a fazer que O SENHOR pensa ser melhor, menosprezando a posição deles. Na escola eles são forçados a aprender em inglês e setswana, mas nada em sua própria língua e cultura. Aos adultos é dado dinheiro e mercadorias, mas nenhuma consciência sobre como administrá-los. Assim como tantos
outros povos indígenas ao redor do mundo, isto está conduzindo-os à HIV/Aids, alcoolismo, violência doméstica e pobreza.
Ninguém está tentando negar ao governo de Botsuana o direito de desenvolver seus cidadãos. Realmente, ele tem a obrigação de fazer isto, mas de tal modo que respeite os direitos humanos - e o direito de participar completamente no processo de desenvolvimento e não ser coagido a “desenvolver” de tal modo que possa contradizer seus valores, cultura, e aspirações individuais e comuns.
Assim, venho por meio desta fazer um apelo ao governo de Botsuana e a todo seu lindo povo para que tenham um pouco mais respeito uns com os outros. Mostrem que vocês realmente se importam, ponham ‘botho’ em prática já.
Deus abençoe Botsuana e que TODOS os seus povos possam viver o Um Amor, Um Povo e Paz. Para ser um povo não é preciso que assimilem todas as culturas numa única, principal. É preciso que todos se juntem como Um, amando, respeitando e zelando um pelo outro. Com diversidade na unidade. Nossas culturas são nossas posses mais valiosas. O mundo está movendo para Um amor e Um povo, cada um no seu próprio passo. Ninguém precisa ser empurrado, nem mesmo os Basarwa/Bosquímanos.
Com amor e respeito
Thomas Bisinger
(carta enviada ao presidente de Botsuana, Festus Mogae e publicada no jornal Mmegi, de Botsuana)
/ANGN!AO/UN - do livro Healing Makes our Hearts Happy
Naro Giraffe apresenta danças sagradas ao Presidente Mogae
Sua Excelência,
Sou um viajante do Brasil que passou algum tempo em seu lindo país, Botsuana, com incríveis povos e culturas. Tenho feito alguma pesquisa na situação dos chamados ´Basarwa` (bosquímanos) e sua recolocação.
O senhor diz que quer desenvolver estas pessoas, mas de acordo com o dicionário, desenvolver é “fazer maior, ou melhor”. Como o senhor pode saber o que é melhor para um povo completamente diferente, com uma cultura e valores diferentes, o qual tem morado nesta terra por mais tempo que seu próprio povo?
Eu não estou dizendo que eles devem tem mais direitos por isso, mas penso que devem ter os mesmos direitos. Eles devem ter a chance de escolher como querem viver suas próprias vidas. Se eles escolhem viver como caçador-coletores, com o devido respeito, quem é o senhor para dizer que eles não podem fazer isto porque é algo do passado?
Numa de suas falas o senhor declarou: “… nós devemos continuar também a rejeitar o velho colonial mito do apartheid (segregação racial) que insiste que algumas comunidades negras são mais indígenas que outras”. De acordo com a ONU: “povos indígenas são os herdeiros e praticantes de culturas únicas e de meios de relacionar com outras pessoas e o meio-ambiente. Povos Indígenas retiveram características sociais, culturais, econômicas e políticas que são distintas daquelas das sociedades dominantes nas quais elas vivem”. Citando Alice Mogwe: “A tragédia é que nós estamos jogando de novo o jogo de colonização se nós não permitirmos aos San* o direito de serem diferentes”. O senhor vê a conexão? Não é sobre considerar algumas pessoas mais indígenas que outras, é sobre o significado de ser indígena e o que isso implica em
sua maneira de viver. O governo de Botsuana adotou características ocidentais de sociedade, cultura, economia e política. Algumas pessoas/povos, tais como os basarwa/Bosquímanos não querem isto. E não é sobre eles voltarem para seus velhos hábitos e andarem por aí em peles de animais. É sobre eles escolherem como querem viver e como querem desenvolver.
Porque eles não podem ser diferentes? Como senhor mesmo declarou: “A força e o sucesso de nossa nação dependem de nossa habilidade de apreciar e administrar nossas diferenças”. O país tem adotado uma maravilhosa política com a Visão 2016, mas o senhor se contradiz com suas ações presentes e algumas das metas: “… liberdade de vontade será completamente protegida”; “Haverá altos estandartes de moralidade pessoal e tolerantes atitudes sociais para pessoa/povos de diferentes culturas, tradições étnicas, religiões ou desabilidades”; “Botsuana será uma nação unida e orgulhosa”.
Botsuana tem tudo o que precisa para construir uma nação unida e orgulhosa, exceto que o governo está insistindo em expressar falta de ‘botho’ (palavra Setswana para respeito, bons modos) entre as minorias. É inaceitável que um presidente não respeite as pessoas de seu próprio país. É inaceitável que um presidente não respeite seus direitos mais
básicos, tais como a liberdade de escolher onde e como querem viver suas próprias vidas. Todos, inclusive as minorias, têm o direito de viver uma vida de dignidade sem hierarquias dizendo-lhes o que fazer, como viver, que línguas falar e em que acreditar. Eu espero que, por escrever isto, não seja estereotipado como apenas mais um romântico que quer ver os bosquímanos caminhando por aí em peles de animais ou um branco arrogante vindo lhes dizer o que fazer. Bem, não me entendam mal. Eu não quero dizer a vocês ou a eles (Bushman/Basarwa) o quê fazer. Eu não penso que eu sei melhor. Também não penso que vocês saibam melhor. É por isso que eu desejo que vocês parem de dizer a eles o que fazer, pensando que vocês sabem melhor.
Estive em New Xade e em alguns outros “re-assentamentos”. Fui informado que o governo está dando muita comida às pessoas re-assentadas em New Xade. Isto soa como boa ajuda, mas está somente fazendo-os completamente dependentes do governo. O senhor tira suas terras, seus direitos, sua independência como povo, suas vidas como eles a conhecem e, em troca, lhes dá dinheiro, comida e outros bens materiais. Muito dinheiro está sendo gasto no desenvolvimento dos acampamentos de re-assentamento, mas vocês estão se esquecendo de que as pessoas são o mais importante.
A princípio fiquei impressionado com o trabalho que a ONG Permaculture Trust of Botsuana (PTB) está fazendo para ajudar as pessoas a fazer pequenas hortas e criações de galinhas, a produzir tijolos para suas casas próprias, e começar uma loja de artesanato. Por outro lado, percebi que mesmo que este seja um lado positivo, no conjunto é desprezível. Está longe de compensar todas as perdas. O trabalho que a PTB está fazendo é só mais um meio de induzir os Basarwa a fazer que O SENHOR pensa ser melhor, menosprezando a posição deles. Na escola eles são forçados a aprender em inglês e setswana, mas nada em sua própria língua e cultura. Aos adultos é dado dinheiro e mercadorias, mas nenhuma consciência sobre como administrá-los. Assim como tantos
outros povos indígenas ao redor do mundo, isto está conduzindo-os à HIV/Aids, alcoolismo, violência doméstica e pobreza.
Ninguém está tentando negar ao governo de Botsuana o direito de desenvolver seus cidadãos. Realmente, ele tem a obrigação de fazer isto, mas de tal modo que respeite os direitos humanos - e o direito de participar completamente no processo de desenvolvimento e não ser coagido a “desenvolver” de tal modo que possa contradizer seus valores, cultura, e aspirações individuais e comuns.
Assim, venho por meio desta fazer um apelo ao governo de Botsuana e a todo seu lindo povo para que tenham um pouco mais respeito uns com os outros. Mostrem que vocês realmente se importam, ponham ‘botho’ em prática já.
Deus abençoe Botsuana e que TODOS os seus povos possam viver o Um Amor, Um Povo e Paz. Para ser um povo não é preciso que assimilem todas as culturas numa única, principal. É preciso que todos se juntem como Um, amando, respeitando e zelando um pelo outro. Com diversidade na unidade. Nossas culturas são nossas posses mais valiosas. O mundo está movendo para Um amor e Um povo, cada um no seu próprio passo. Ninguém precisa ser empurrado, nem mesmo os Basarwa/Bosquímanos.
Com amor e respeito
Thomas Bisinger
(carta enviada ao presidente de Botsuana, Festus Mogae e publicada no jornal Mmegi, de Botsuana)
quarta-feira, 13 de junho de 2007
Vipassana
Todos queremos alguma coisa. Uns querem coisas materiais (carro, casa, roupa), outros querem amor, poder, forca, beleza, alegria, saúde - Não importa o que, cada ser humano esta sempre em busca de algo, senão não teria por que viver. Como disse José Saramago: "Sem desejo não há vida". E seja lá o que for esse desejo de cada um, o objetivo final é o mesmo: Felicidade.
E a felicidade verdadeira, pura, plena, parece tão difícil de encontrar, chega a parecer inatingível.
Isso acontece porque sempre estamos buscando em todos os lugares possíveis, menos no lugar mais eficiente: dentro de nos mesmos.
E o que é esse buscar dentro de nos mesmos? Em que implica isto?
Pensando em nossas vidas desde que nascemos, sempre estamos vendo tudo a nossa volta. Em geral, nada que acontece ao nosso redor escapa de nossa atenção. E quanto tempo de nossas vidas passamos percebendo o que passa dentro de nos, em nossos corpos e nossas mentes?
Quase NADA.
Outra coisa: Preste atenção a seus pensamentos por um momento e note se estão no presente, passado ou futuro. Tão raramente estamos atentos ao que esta passando aqui e agora. Mesmo quando estamos concentrados em algo que passa a nossa volta, desde um jogo de futebol, uma peca de teatro ou qualquer atividade a que nos dediquemos em um determinado momento, nossos pensamentos estão vagando em algum lugar do passado ou futuro. Podemos estar tendo boas lembranças de lindos momentos que já passaram, ou más lembranças de algo ruim que aconteceu - o que nos causa sensações no presente, boas ou más - mas nem a essas sensações prestamos muita atenção - estamos tão concentrados nesta ou aquela lembrança, que se liga a outra e mais outra e outra e assim vai num ciclo interminável.
Ou então pensamos no futuro, no que vamos fazer, no que queremos obter, no que temos medo que aconteça e por ai vai.
Podemos estar praticando algum esporte, cozinhando, comendo, trabalhando, não importa o que, nossa mente geralmente esta longe, no passado ou futuro. O problema é que o passado já passou. É inalcançável, não ha como chegar a ele, não ha como mudá-lo, ou seja, não existe mais. E o futuro, ainda não existe, sendo assim tambem fora de alcance. Não adianta pensar que quando tal coisa acontecer, vou fazer isto ou aquilo, pois tal coisa pode não acontecer. Em outras palavras, tudo pode acontecer.
E o presente? O Aqui e Agora, sem pensar no que passou ou no que passara, simplesmente estando e observando o presente imediato, assim como ele é!?! Mesmo que venham esses pensamentos de passado ou futuro, que são meio inevitáveis mesmo, que tal concentrar-se no aqui e agora. Os pensamentos vêm e vão, mas não lhe damos muita bola, são como uma musica de fundo.
Como é difícil fazer isto!!! Os pensamentos vêm e a mente vai embora e quando nos damos conta, já pensamos em tantas coisas e já esquecemos do presente.
Mas para que fazer isso? para que fazer tanto esforco em concentrar-se no presente, sabendo que e tao dificil? Porque isso traz uma paz e felicidade tao plenas que palavras nao podem explicar; somente experienciando para saber do que se trata.
E como fazer isto?
Bem, para tudo na vida o homem cria instrumentos que o ajudem a fazer o que quer ou necessita. Para locomover-se mais rápido e eficiente, criou carros, barcos e aviões, para cortar as coisas criou facas e tesouras, para armazenar informações criou escritas e papel e caneta. Poderia ficar horas, dias, anos citando coisas criadas pelo homem para ajudar a fazer o que quer ou necessita.
Assim, seres humanos que se conscientizaram de importância de estar atento ao aqui e agora, criaram técnicas que os auxiliassem a fazê-lo. E é justo disso que quero falar. Esta técnica especifica se chama Vipassana e vem da Índia. Vipassana foi criado ha 25 séculos por um homem chamado Sidharta Gautama, mais conhecido como Buda.
Buda não é um nome e sim um estado. Qualquer ser pode ser um Buda. Ser Buda é estar iluminado.
A idéia é que todos temos uma vida infeliz. Às vezes é difícil aceitar este fato. "Eu, infeliz? nao, eu gosto de minha vida. Tenho altos e baixos, mas assim mesmo e a vida, ne?! Se analisamos nossa vida um pouquinho, veremos o quao infelizes realmente somos. Sempre estamos com desejos ou aversões ao que queremos ou não queremos, gostamos e nao gostamos, respectivamente. Desde uma simples comida ate nossa principal atividade, nossa profissao, como é difícil simplesmente aceitar as coisas como são, sem julgar se são boas ou más?!?! Para isso temos que compreender e aceitar a impermanência de TUDO na vida. Tudo esta mudando o tempo todo. "A única certeza é que tudo muda" disse Confúcio. Se estivermos muito bem, devemos lembrar que isto vai mudar. Se estivermos muito mal, também devemos lembrar que isto vai mudar. Devemos estar sempre conscientes, em qualquer estado ou condição que estejamos, de que:
"Isto também passara". Aceitar isso num nivel intelectual e ate facil, mas isso somente faz um efeito quando experienciamos, quando sentimos isto a flor da pele, o que traz tamanha harmonia e felicidade; indescritiveis.
Buda não é uma religião. Existem varias vertentes de uma religião que se chama budismo, ou seja, que seguem Buda. Mas Sidharta Gautama, o Buda a que todos se referem, nunca quis que essas religiões fossem criadas e nem que as pessoas lhe adorassem. Tudo o que queria era que as pessoas tivessem a chance de, como ele, se libertarem de todo sofrimento e se iluminarem. Por isso ensinou Vipassana, a técnica de meditação por observação, desde o momento em que a conheceu, ate minutos antes de sua morte. E fez isto sem religião, sem rituais, sem adoração a este Deus, aquele santo, ou aquela imagem. Sendo assim, Vipassana serve para qualquer pessoa, independente de crença ou religião, pois a técnica não contradiz com nenhuma delas. Ao redor do mundo todo, praticantes e inclusive lideres das mais diversas religiões praticam Vipassana diariamente, obtendo benefícios que começam em seus interiores e se espalham por tudo e todos ao seu redor.
Os ensinamentos originais de Buda se baseiam apenas em tres coisas: moralidade, concentracao e sabedoria - Sila, samadhi e pañña, respectivamente. E nao ha religiao que se preze que discorde de que essas virtudes sao essenciais a qualquer ser humano. So que Buda vai tao a fundo nisso que a teoria fica em segundo plano, sendo a pratica o mais importante - enquanto a maior parte da humanidade fica somente na teoria.
E em que consiste um curso de Vipassana?
Consiste em 10 dias de retiro e dedicação a aprender a técnica. Para isto, uma pessoa tem que, por estes 10 dias, seguir rigorosamente os seguintes preceitos:
Abster-se de causar dano a qualquer ser vivo, mesmo um mosquito;
Abster-se de pegar o que nao lhe foi dado (roubar);
Abster-se de conduta sexual inadequada;
Abster-se de mentir ou maldizer;
Abster-se de intoxicantes.
Então, se tiver vontade de dar uma chance ao Vipassana de melhorar sua vida, é só buscar um curso e inscrever-se.
E quanto custa?
Ai é que está: não custa. A meu ver, é melhor do que se fosse grátis. O curso funciona a baseado em doações espontâneas feitas por quem já terminou um curso de 10 dias. Você se inscreve, vai, passa dez dias fazendo o curso com hospedagem e alimentação incluídas e, ao final de tudo, faz uma doação de acordo com suas condições e vontade. Todos que trabalham num curso de Vipassana o fazem voluntariamente, por amor puro, assim como fez Sidharta ate o ultimo dia de sua vida.
O dinheiro doado é única e exclusivamente para que outras pessoas depois de você possam fazer o mesmo curso. É uma corrente de amor incondicional.
Para maiores informações sobre Vipassana, datas e locais de curso e inscrições, acesse na Internet: www.dhamma.org em inglês ou http://www.portuguese.dhamma.org em português.
Que todos seres sejam Felizes!!!
E a felicidade verdadeira, pura, plena, parece tão difícil de encontrar, chega a parecer inatingível.
Isso acontece porque sempre estamos buscando em todos os lugares possíveis, menos no lugar mais eficiente: dentro de nos mesmos.
E o que é esse buscar dentro de nos mesmos? Em que implica isto?
Pensando em nossas vidas desde que nascemos, sempre estamos vendo tudo a nossa volta. Em geral, nada que acontece ao nosso redor escapa de nossa atenção. E quanto tempo de nossas vidas passamos percebendo o que passa dentro de nos, em nossos corpos e nossas mentes?
Quase NADA.
Outra coisa: Preste atenção a seus pensamentos por um momento e note se estão no presente, passado ou futuro. Tão raramente estamos atentos ao que esta passando aqui e agora. Mesmo quando estamos concentrados em algo que passa a nossa volta, desde um jogo de futebol, uma peca de teatro ou qualquer atividade a que nos dediquemos em um determinado momento, nossos pensamentos estão vagando em algum lugar do passado ou futuro. Podemos estar tendo boas lembranças de lindos momentos que já passaram, ou más lembranças de algo ruim que aconteceu - o que nos causa sensações no presente, boas ou más - mas nem a essas sensações prestamos muita atenção - estamos tão concentrados nesta ou aquela lembrança, que se liga a outra e mais outra e outra e assim vai num ciclo interminável.
Ou então pensamos no futuro, no que vamos fazer, no que queremos obter, no que temos medo que aconteça e por ai vai.
Podemos estar praticando algum esporte, cozinhando, comendo, trabalhando, não importa o que, nossa mente geralmente esta longe, no passado ou futuro. O problema é que o passado já passou. É inalcançável, não ha como chegar a ele, não ha como mudá-lo, ou seja, não existe mais. E o futuro, ainda não existe, sendo assim tambem fora de alcance. Não adianta pensar que quando tal coisa acontecer, vou fazer isto ou aquilo, pois tal coisa pode não acontecer. Em outras palavras, tudo pode acontecer.
E o presente? O Aqui e Agora, sem pensar no que passou ou no que passara, simplesmente estando e observando o presente imediato, assim como ele é!?! Mesmo que venham esses pensamentos de passado ou futuro, que são meio inevitáveis mesmo, que tal concentrar-se no aqui e agora. Os pensamentos vêm e vão, mas não lhe damos muita bola, são como uma musica de fundo.
Como é difícil fazer isto!!! Os pensamentos vêm e a mente vai embora e quando nos damos conta, já pensamos em tantas coisas e já esquecemos do presente.
Mas para que fazer isso? para que fazer tanto esforco em concentrar-se no presente, sabendo que e tao dificil? Porque isso traz uma paz e felicidade tao plenas que palavras nao podem explicar; somente experienciando para saber do que se trata.
E como fazer isto?
Bem, para tudo na vida o homem cria instrumentos que o ajudem a fazer o que quer ou necessita. Para locomover-se mais rápido e eficiente, criou carros, barcos e aviões, para cortar as coisas criou facas e tesouras, para armazenar informações criou escritas e papel e caneta. Poderia ficar horas, dias, anos citando coisas criadas pelo homem para ajudar a fazer o que quer ou necessita.
Assim, seres humanos que se conscientizaram de importância de estar atento ao aqui e agora, criaram técnicas que os auxiliassem a fazê-lo. E é justo disso que quero falar. Esta técnica especifica se chama Vipassana e vem da Índia. Vipassana foi criado ha 25 séculos por um homem chamado Sidharta Gautama, mais conhecido como Buda.
Buda não é um nome e sim um estado. Qualquer ser pode ser um Buda. Ser Buda é estar iluminado.
A idéia é que todos temos uma vida infeliz. Às vezes é difícil aceitar este fato. "Eu, infeliz? nao, eu gosto de minha vida. Tenho altos e baixos, mas assim mesmo e a vida, ne?! Se analisamos nossa vida um pouquinho, veremos o quao infelizes realmente somos. Sempre estamos com desejos ou aversões ao que queremos ou não queremos, gostamos e nao gostamos, respectivamente. Desde uma simples comida ate nossa principal atividade, nossa profissao, como é difícil simplesmente aceitar as coisas como são, sem julgar se são boas ou más?!?! Para isso temos que compreender e aceitar a impermanência de TUDO na vida. Tudo esta mudando o tempo todo. "A única certeza é que tudo muda" disse Confúcio. Se estivermos muito bem, devemos lembrar que isto vai mudar. Se estivermos muito mal, também devemos lembrar que isto vai mudar. Devemos estar sempre conscientes, em qualquer estado ou condição que estejamos, de que:
"Isto também passara". Aceitar isso num nivel intelectual e ate facil, mas isso somente faz um efeito quando experienciamos, quando sentimos isto a flor da pele, o que traz tamanha harmonia e felicidade; indescritiveis.
Buda não é uma religião. Existem varias vertentes de uma religião que se chama budismo, ou seja, que seguem Buda. Mas Sidharta Gautama, o Buda a que todos se referem, nunca quis que essas religiões fossem criadas e nem que as pessoas lhe adorassem. Tudo o que queria era que as pessoas tivessem a chance de, como ele, se libertarem de todo sofrimento e se iluminarem. Por isso ensinou Vipassana, a técnica de meditação por observação, desde o momento em que a conheceu, ate minutos antes de sua morte. E fez isto sem religião, sem rituais, sem adoração a este Deus, aquele santo, ou aquela imagem. Sendo assim, Vipassana serve para qualquer pessoa, independente de crença ou religião, pois a técnica não contradiz com nenhuma delas. Ao redor do mundo todo, praticantes e inclusive lideres das mais diversas religiões praticam Vipassana diariamente, obtendo benefícios que começam em seus interiores e se espalham por tudo e todos ao seu redor.
Os ensinamentos originais de Buda se baseiam apenas em tres coisas: moralidade, concentracao e sabedoria - Sila, samadhi e pañña, respectivamente. E nao ha religiao que se preze que discorde de que essas virtudes sao essenciais a qualquer ser humano. So que Buda vai tao a fundo nisso que a teoria fica em segundo plano, sendo a pratica o mais importante - enquanto a maior parte da humanidade fica somente na teoria.
E em que consiste um curso de Vipassana?
Consiste em 10 dias de retiro e dedicação a aprender a técnica. Para isto, uma pessoa tem que, por estes 10 dias, seguir rigorosamente os seguintes preceitos:
Abster-se de causar dano a qualquer ser vivo, mesmo um mosquito;
Abster-se de pegar o que nao lhe foi dado (roubar);
Abster-se de conduta sexual inadequada;
Abster-se de mentir ou maldizer;
Abster-se de intoxicantes.
Então, se tiver vontade de dar uma chance ao Vipassana de melhorar sua vida, é só buscar um curso e inscrever-se.
E quanto custa?
Ai é que está: não custa. A meu ver, é melhor do que se fosse grátis. O curso funciona a baseado em doações espontâneas feitas por quem já terminou um curso de 10 dias. Você se inscreve, vai, passa dez dias fazendo o curso com hospedagem e alimentação incluídas e, ao final de tudo, faz uma doação de acordo com suas condições e vontade. Todos que trabalham num curso de Vipassana o fazem voluntariamente, por amor puro, assim como fez Sidharta ate o ultimo dia de sua vida.
O dinheiro doado é única e exclusivamente para que outras pessoas depois de você possam fazer o mesmo curso. É uma corrente de amor incondicional.
Para maiores informações sobre Vipassana, datas e locais de curso e inscrições, acesse na Internet: www.dhamma.org em inglês ou http://www.portuguese.dhamma.org em português.
Que todos seres sejam Felizes!!!
Rita e a Pedra Sagrada
Povoado de Challapampa, Ilha do Sol, Lago Titicaca, Bolívia. No alto do morro há uma pequena chácara onde há uma pedra. Esta pedra foi esculpida e posicionada neste local há milhares de anos, provavelmente pela civilização Tiwanaku. Tem uma forma aparentemente abstrata e parece que talvez esconda algo debaixo da terra.
A chácara é habitada e cultivada por Rita Mendoza, seus pais e seu irmão. Rita é uma pessoa muito amável e de cabeça bem aberta. Ela nasceu na ilha do Sol, cresceu em La Paz e depois de crescida voltou a viver na ilha. Rita é paralítica e adora escrever poesia.
Ela conta que antes essas terras faziam parte de grandes fazendas e que, com a reforma agrária, o governo tirou as terras dos latifundiários e vendeu pequenos lotes a preços reduzidos para os verdadeiros donos daquela terra: o povo.
Sua família recebeu este pedaço onde "por acaso" esta a tal pedra, hoje conhecida como pedra sagrada (não confundir com rocha sagrada, que também está na ilha do Sol).
Rita diz que eles têm que fazer muitas oferendas a Pacha Mama (Mãe Terra) com folhas da sagrada Coca e às vezes com fetos de lhama. A família tem certa insegurança de cultivar a terra ao redor da pedra - não sabem se é certo fazê-lo, por ser um local sagrado. Tem muito respeito pela pedra milenar.
Rita comenta que muitos turistas entram em seu terreno para ir ver a pedra, o que lhes é um pouco incômodo. Não sabem o que fazer, porque também não podem impedir que as pessoas a vejam, afinal não são donos da pedra, e todos devem ter direito a apreciar algo assim.
Pergunta se acreditamos na Pacha Mama (Mãe Terra) e em oferendas a ela. Dizemos que sim. Então sugere que façamos uma oferenda com folhas de Coca. Cada um escolhe quatro folhas bonitas (uma para cada direção - norte, sul, leste, oeste) e faz seus pedidos. Então enterramos todas junto à pedra. Esta pedra tem uma energia muito forte, o que faz com que fiquemos apreciando-a por um par de horas, enquanto Rita nos conta histórias da ilha.
O nome original da Ilha do Sol era Titicaca. No lago foi encontrado, já há algumas décadas, um sítio arqueológico com antiqüíssimas pecas de ouro. Estas estavam, até recentemente, no museu da comunidade de Challapampa. Por causa de brigas pelo dinheiro entre esta comunidade e sua vizinha Challa, o ouro sumiu - dizem que está escondido em Challa - e as duas comunidades vivem em constante conflito.
No dia seguinte a visita à pedra Sagrada, pegamos um barco no sul da Ilha para ir visitar as ruínas no norte da ilha. Passando pela comunidade de Challa, somos abordados por dois pequenos barcos à vela e um outro a motor. A bordo deste ultimo, um homem encapuzado segura uma pedra com a qual nos ameaça. Um jovem que tenta esconder seu rosto com seu casaco e gorro tem um estilingue de brinquedo com pedras. Num dos barcos de pesca, um homem também empunha um estilingue. O capitão do nosso barco tenta lhes convencer a nos deixar passar, mas de nada adianta. Temos que ir ate a praia, onde a comunidade esta reunida. Ficamos atracados a um pequeno píer de madeira na praia por uns 10 minutos enquanto o capitão resolve a situação, provavelmente com dinheiro. Então podemos seguir para conhecer as ruínas do norte da ilha do Sol.
EL PEREGRINO
(De Rita Mendoza)
"Peregrino somos
A la sagrada Isla del Sol
Santuario de Dioses
Lago Titiqaqa
Deidad de la raza Aymara
Peregrino nos llaman
Si...somos peregrinos
Buscamos en el alba un
Suspiro del alma."
http://www.flickr.com/photos/thomasbisinger/184362472/
A chácara é habitada e cultivada por Rita Mendoza, seus pais e seu irmão. Rita é uma pessoa muito amável e de cabeça bem aberta. Ela nasceu na ilha do Sol, cresceu em La Paz e depois de crescida voltou a viver na ilha. Rita é paralítica e adora escrever poesia.
Ela conta que antes essas terras faziam parte de grandes fazendas e que, com a reforma agrária, o governo tirou as terras dos latifundiários e vendeu pequenos lotes a preços reduzidos para os verdadeiros donos daquela terra: o povo.
Sua família recebeu este pedaço onde "por acaso" esta a tal pedra, hoje conhecida como pedra sagrada (não confundir com rocha sagrada, que também está na ilha do Sol).
Rita diz que eles têm que fazer muitas oferendas a Pacha Mama (Mãe Terra) com folhas da sagrada Coca e às vezes com fetos de lhama. A família tem certa insegurança de cultivar a terra ao redor da pedra - não sabem se é certo fazê-lo, por ser um local sagrado. Tem muito respeito pela pedra milenar.
Rita comenta que muitos turistas entram em seu terreno para ir ver a pedra, o que lhes é um pouco incômodo. Não sabem o que fazer, porque também não podem impedir que as pessoas a vejam, afinal não são donos da pedra, e todos devem ter direito a apreciar algo assim.
Pergunta se acreditamos na Pacha Mama (Mãe Terra) e em oferendas a ela. Dizemos que sim. Então sugere que façamos uma oferenda com folhas de Coca. Cada um escolhe quatro folhas bonitas (uma para cada direção - norte, sul, leste, oeste) e faz seus pedidos. Então enterramos todas junto à pedra. Esta pedra tem uma energia muito forte, o que faz com que fiquemos apreciando-a por um par de horas, enquanto Rita nos conta histórias da ilha.
O nome original da Ilha do Sol era Titicaca. No lago foi encontrado, já há algumas décadas, um sítio arqueológico com antiqüíssimas pecas de ouro. Estas estavam, até recentemente, no museu da comunidade de Challapampa. Por causa de brigas pelo dinheiro entre esta comunidade e sua vizinha Challa, o ouro sumiu - dizem que está escondido em Challa - e as duas comunidades vivem em constante conflito.
No dia seguinte a visita à pedra Sagrada, pegamos um barco no sul da Ilha para ir visitar as ruínas no norte da ilha. Passando pela comunidade de Challa, somos abordados por dois pequenos barcos à vela e um outro a motor. A bordo deste ultimo, um homem encapuzado segura uma pedra com a qual nos ameaça. Um jovem que tenta esconder seu rosto com seu casaco e gorro tem um estilingue de brinquedo com pedras. Num dos barcos de pesca, um homem também empunha um estilingue. O capitão do nosso barco tenta lhes convencer a nos deixar passar, mas de nada adianta. Temos que ir ate a praia, onde a comunidade esta reunida. Ficamos atracados a um pequeno píer de madeira na praia por uns 10 minutos enquanto o capitão resolve a situação, provavelmente com dinheiro. Então podemos seguir para conhecer as ruínas do norte da ilha do Sol.
EL PEREGRINO
(De Rita Mendoza)
"Peregrino somos
A la sagrada Isla del Sol
Santuario de Dioses
Lago Titiqaqa
Deidad de la raza Aymara
Peregrino nos llaman
Si...somos peregrinos
Buscamos en el alba un
Suspiro del alma."
http://www.flickr.com/photos/thomasbisinger/184362472/
terça-feira, 12 de junho de 2007
Zé Kleuber e as castanhas elétricas
(publicado na revista 'pobres & nojentas')
Numa festa particular em Rio Branco, encontro um homem baixo, de longos cabelos brancos, cacheados. Mais cedo daquele mesmo dia havíamos nos visto na apresentação musical “Boca de Mulher” que aconteceu no Teatro Placido de Castro. Lá, ele me cumprimentou como se me conhecesse, e eu cumprimentei de volta sentindo certa conexão.
Na festa ele vem até mim e explica que, no teatro, achou que eu fosse outra pessoa. Então a conversa flui e ele me conta algumas historias de sua vida, que era artesão, vendia "trampo" (colares, pulseiras, etc.) para sobreviver. Então teve sério problema na vista que o obrigou a abandonar esta profissão. Pediu a Deus que o orientasse quanto ao que fazer da vida - Como poderia a esta altura, mudar de profissão? O que faria?
Então veio a "resposta": ele deveria compor canções. Ele estranhou, pois não sabe tocar nenhum instrumento musical, apesar de já haver composto belas canções para sua religião.
Zé Kleuber, hoje com 56 anos de idade, se sustenta como compositor. Já ganhou alguns prêmios em festivais de diferentes partes do Brasil.
Desde o começo de nossa conversa algo me chama muito a atenção em Kleuber: seu colar. Parece ser feito com mini sementes de Aguaí. Ao longo do papo eu fico examinando para ver se realmente são “mini aguais”. Então lhe pergunto. Ele da uma risada, tira o colar e o coloca em minhas mãos, perguntando se conheço a historia desta semente. Digo que não conheço uma historia, mas que sei que ela tem muita força. Mas também nunca havia visto esta variedade "mini" – que, aliás, é muito charmosa.
Então ele me conta um pouco de sua historia: nasceu em Pernambuco e cresceu no Maranhão. Lá por 74? Estava ele viajando com amigos e foram andando desde Rio Branco, no leste do Acre até Cruzeiro do Sul, no oeste.
Pela estrada, encontraram uma cobra que fazia movimentos ameaçadores. Na dúvida, mataram a cobra com uma pequena espingarda que tinham. Então veio um menino. Eles nem tinham percebido que havia casas próximo dali - era muita mata. As casas eram de seringueiros. O menino os indicou como chegar numa casa e caminharam ate lá e foram muito bem recebidos. Contaram que mataram uma cobra ali no caminho e o menino, que fora ver a cobra e voltara a casa, disse que não era venenosa, mas sim do tipo que come as venenosas. Kleuber disse que ficou mal com isso... já não gostava de matar animais, e ainda mais inofensivos...almoçaram e continuaram a viagem.
Mais adiante encontraram índios que acampavam ali no caminho, e numa conversa, ele contou que tinha matado aquele tipo de cobra e que aquilo o incomodava. Disse que uma índia se levantou e foi buscar algo. Voltou com uma semente de aguai amarrada num cordão de palha. Disse-lhe que as cobras iriam lhe perseguir, e que deveria usar isto amarrado na cintura, abaixo do umbigo, para proteção.
Ele o fez. A semente o lembrou de sua infância, no Maranhão, quando brincava com essas sementes. Pegava os frutos verdes e macios e fincava gravetinhos em sua carne para imitar animais.
No outro dia, estavam andando na trilha, em fila indiana, quando ouviu uma cobra se aproximando. Ela vinha em sua direção e, de repente, deu meia volta e sumiu na mata.
Tempos depois, ouviu falar de Dr. Henrique Smith que estudou esta semente e seus poderes. Este escreveu um livro chamado Aguai Zen. Com a foto kirlian (foto da aura) da semente, verificou como tem uma aura poderosa.
Então certo dia ele achou, sob uma arvore, estas mini sementes de aguai, conhecidas como “castanha elétrica” aqui no Acre. Disse que já ouviu historias como de que este tipo “mini” só dá a cada sete anos... Mas ainda não conseguiu comprovar de fato qual a historia desta variedade. Ate hoje só encontrou uma arvore que as produz assim deste tamanho.
Mais recentemente, estava num encontro onde apareceu outra cobra. Resolveu fazer um teste: rodeou a cobra com “castanhas elétricas”. Conta que ela ficou parada com a cabeça erguida, até que veio algum entendido e recolheu a cobra.
Zé Kleuber conta ainda que há varias maneiras de usar a semente, inclusive utilizando o óleo que tem dentro, diretamente sobre áreas doloridas do corpo. Mas deve-se tomar cuidado pois o liquido da semente e do fruto é venenoso. Outra coisa que ele descobriu com o tempo, é que para usar a semente em contato com o corpo, é melhor que seja em áreas onde não há ossos muito expostos, pois isso pode provocar dor. Então ele entendeu por que a índia lhe disse para usá-la abaixo do umbigo. Hoje, Zé Kleuber, assim como muitos outros que conhecem o poder desta semente, carregam sempre uma no bolso.
http://www.flickr.com/photos/thomasbisinger/301090549/
Numa festa particular em Rio Branco, encontro um homem baixo, de longos cabelos brancos, cacheados. Mais cedo daquele mesmo dia havíamos nos visto na apresentação musical “Boca de Mulher” que aconteceu no Teatro Placido de Castro. Lá, ele me cumprimentou como se me conhecesse, e eu cumprimentei de volta sentindo certa conexão.
Na festa ele vem até mim e explica que, no teatro, achou que eu fosse outra pessoa. Então a conversa flui e ele me conta algumas historias de sua vida, que era artesão, vendia "trampo" (colares, pulseiras, etc.) para sobreviver. Então teve sério problema na vista que o obrigou a abandonar esta profissão. Pediu a Deus que o orientasse quanto ao que fazer da vida - Como poderia a esta altura, mudar de profissão? O que faria?
Então veio a "resposta": ele deveria compor canções. Ele estranhou, pois não sabe tocar nenhum instrumento musical, apesar de já haver composto belas canções para sua religião.
Zé Kleuber, hoje com 56 anos de idade, se sustenta como compositor. Já ganhou alguns prêmios em festivais de diferentes partes do Brasil.
Desde o começo de nossa conversa algo me chama muito a atenção em Kleuber: seu colar. Parece ser feito com mini sementes de Aguaí. Ao longo do papo eu fico examinando para ver se realmente são “mini aguais”. Então lhe pergunto. Ele da uma risada, tira o colar e o coloca em minhas mãos, perguntando se conheço a historia desta semente. Digo que não conheço uma historia, mas que sei que ela tem muita força. Mas também nunca havia visto esta variedade "mini" – que, aliás, é muito charmosa.
Então ele me conta um pouco de sua historia: nasceu em Pernambuco e cresceu no Maranhão. Lá por 74? Estava ele viajando com amigos e foram andando desde Rio Branco, no leste do Acre até Cruzeiro do Sul, no oeste.
Pela estrada, encontraram uma cobra que fazia movimentos ameaçadores. Na dúvida, mataram a cobra com uma pequena espingarda que tinham. Então veio um menino. Eles nem tinham percebido que havia casas próximo dali - era muita mata. As casas eram de seringueiros. O menino os indicou como chegar numa casa e caminharam ate lá e foram muito bem recebidos. Contaram que mataram uma cobra ali no caminho e o menino, que fora ver a cobra e voltara a casa, disse que não era venenosa, mas sim do tipo que come as venenosas. Kleuber disse que ficou mal com isso... já não gostava de matar animais, e ainda mais inofensivos...almoçaram e continuaram a viagem.
Mais adiante encontraram índios que acampavam ali no caminho, e numa conversa, ele contou que tinha matado aquele tipo de cobra e que aquilo o incomodava. Disse que uma índia se levantou e foi buscar algo. Voltou com uma semente de aguai amarrada num cordão de palha. Disse-lhe que as cobras iriam lhe perseguir, e que deveria usar isto amarrado na cintura, abaixo do umbigo, para proteção.
Ele o fez. A semente o lembrou de sua infância, no Maranhão, quando brincava com essas sementes. Pegava os frutos verdes e macios e fincava gravetinhos em sua carne para imitar animais.
No outro dia, estavam andando na trilha, em fila indiana, quando ouviu uma cobra se aproximando. Ela vinha em sua direção e, de repente, deu meia volta e sumiu na mata.
Tempos depois, ouviu falar de Dr. Henrique Smith que estudou esta semente e seus poderes. Este escreveu um livro chamado Aguai Zen. Com a foto kirlian (foto da aura) da semente, verificou como tem uma aura poderosa.
Então certo dia ele achou, sob uma arvore, estas mini sementes de aguai, conhecidas como “castanha elétrica” aqui no Acre. Disse que já ouviu historias como de que este tipo “mini” só dá a cada sete anos... Mas ainda não conseguiu comprovar de fato qual a historia desta variedade. Ate hoje só encontrou uma arvore que as produz assim deste tamanho.
Mais recentemente, estava num encontro onde apareceu outra cobra. Resolveu fazer um teste: rodeou a cobra com “castanhas elétricas”. Conta que ela ficou parada com a cabeça erguida, até que veio algum entendido e recolheu a cobra.
Zé Kleuber conta ainda que há varias maneiras de usar a semente, inclusive utilizando o óleo que tem dentro, diretamente sobre áreas doloridas do corpo. Mas deve-se tomar cuidado pois o liquido da semente e do fruto é venenoso. Outra coisa que ele descobriu com o tempo, é que para usar a semente em contato com o corpo, é melhor que seja em áreas onde não há ossos muito expostos, pois isso pode provocar dor. Então ele entendeu por que a índia lhe disse para usá-la abaixo do umbigo. Hoje, Zé Kleuber, assim como muitos outros que conhecem o poder desta semente, carregam sempre uma no bolso.
http://www.flickr.com/photos/thomasbisinger/301090549/
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